segunda-feira, 24 de maio de 2010

Alistair...tudo começou...com sangue

O cetim dourado estava rubro, e as gotas iam se espalhando pelo assoalho, uma pequena poça de agua e sangue pelo chão e os gritos, meu Deus, os gritos faziam os empregados repetirem incessantemente o sinal da cruz.
Ela estava sozinha,sozinha com seus gritos de desespero, trancada no quarto, com o pequeno menino chorando aos seus pés repetindo as orações que o padre ensinanava.
Ela morria trancada. Trancada pelas mesmas chaves que agora jaziam seguras nas calças negras, nas pernas cruzadas, no escritório distante de um senhor, seu senhor, o senhor que não tinha rosto de menina. E que nunca, nunca fora ou seria um pai.

- Não papai. Pare por favor! Pai pai!!!!!!!!!!!!!! Ela não está se mexendo...

Os punhos sangravam contra o batente da porta que se recusava sequer ao minimo movimento. Os enormes portais o ignoravam, alheios por completo as manchas vermelhas em seu verniz. O sangue...toda sua vida estava regada ele...o sangue traçava um caminho sinuoso no mogno...das mãos brancas...dos dedos cortados...até o chão. Ele bateu...e gritou...ele pediu e implorou, ele chamou por tudo que acreditava ele até chamou por quem não acreditara jamais ...

- Não mexe...não...

De olhos marcados pelos tapas no rosto, pelas marcas na pele, pelos cortes na face, ele finalmente caiu inconsciente no chão. Exausto, exausto dos punhos em carne viva, exausto de tremer com o corpo inerte. Exausto de balançar aquele pequeno pacotinho inerte, roxo, que parecia com seus outros irmãos.

A cama estava cheia de sangue. Sangue de parto. Esse foi o primeiro contato de Alistair com o sangue. O sangue em sua boca. O sangue do corte no supercilio e o sangue em que sua miúda e delicada mãe se esvaziu, após um parto solitário, com um pequeno garoto de 5 anos para ajudar, após uma queda nas escadarias da enorme fazenda, que ele de maneira infantil chamava de lar. Essa foi a única imagem que restou de sua controversa origem, nunca houve uma imagem materna, com seis anos todas as lembranças se resumiam a uma cama de sangue e água. E uma sensação enorme de não quero mais.

Alistair teria odiado pai naquele momento, não estivesse ele convencido do principios com os quais ele fora esmagado, mas os principios não foram suficientes para afastar o ódio de si e anos depois o pai, aquele que não tinha o rosto de menina, se lembraria daquela noite. Durante os anos subsequentes sonhos sempre vermelhos, iam e vinham retornando àquela cena.

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