Ela está cochilando. O babaca do demônio foi chamado pra receber alguma instrução e saiu de perto. E hoje ela rezou, isso dificulta as coisas pra ele.
Ariel sorri com o pensamento. Ela rezou pro anjo da guarda, rezou pra ele. Bem, ele não era bem o anjo que ela imaginava que fosse, mas isso não importava. As pessoas imaginam seus protetores da mais diferente forma, o importante é acreditar neles. Ariel desconfiava que ela teria uma decepção se soubesse quem era seu guardião.
Sou o que chamam de anjo em algumas crenças. Sou um mensageiro, um aggelos. Mas não sou perfeito, só o Pai é. Eu fui humano, há nem tanto tempo assim, estou no meu próprio caminho pela evolução. Minha atual missão é ela, cuidar dela, tentar guiá-la no caminho do Bem e atenuar a solidão que as almas sentem quando encarnadas.
Mas eu sou falível, tenho meus próprios defeitos e não estou livre de emoções humanas... Na verdade ainda sinto a maior parte delas... Não é fácil como parece evoluir.
O anjo se aproxima da garota adormecida, brincando de fazer rosas imaginarias nos cachos longos dela. Ele sorria candidamente, brincando com os cabelos dela.
Ela é muito novinha ainda. Tem tanto o que viver e o que aprender... Eu a amo, como amo a todas as criaturas, meus irmãos. Vou ajuda-la a desenvolver seus bons sentimentos, vou cuidar dela...
Ele pisca e aproxima os lábios dos dela devagar.
Mas existe algo nela que é diferente dos outros... Eu... eu nunca fui um anjo da guarda antes... seria isso a nossa conexão? Estarmos tão próximos faz isso? É normal eu gostar tanto quando ela ri? Sempre que ela ri... que vejo seus lábios se abrirem num sorriso... me lembro do Paraíso... de como tudo pode ser bom e belo... e eu...
O anjo se afasta, mexendo nervosamente nos anéis. Arruma o cabelo e volta a olhar a moça adormecida. Ele sabe que ela é apenas comumente bonita. Sabe que ela é inteligente, mas como humana que é está tão longe de entender os verdadeiros mistérios do universo. E ele pode ver os defeitos dela, cada mau pensamento que ela tenta esconder, vê seus medos e suas fraquezas, tão facilmente como pode ver o tempo nublando através de uma janela aberta.
Os humanos gostam do mistério sobre os outros... isso não existe para nós. Eu sei cada pensamento dela, cada pequeno ou grande temor. E é da minha natureza amá-la apesar de tudo isso. Por que então me inquieto? Amar os humanos não é parte, a parte mais importante, de ser o que sou? Por que meu coração não sossega quando a olho?
Ariel suspira, caminhando pelo quarto. Pode ver todos os anjos, demônios e outras criaturas cruzando o plano espiritual, cuidando de suas coisas. Ele era um anjo jovem, não mais do que setecentos anos após sua última morte, mas já estava habituado a sua nova vida. E, a despeito de tentar fingir que não sabia, ele já desconfiava do que o inquietava na jovem humana.
Eu já amei antes, tantas vezes... Não estou livre de sentimentos como paixão... ou desejo, não ainda. Sei que gostaria de beijá-la... gostaria que ela entendesse o que falo, que pudesse me ver...
O anjo voltou pra cama, deitando ao lado da menina.
Ela gostaria de mim? Como eu gosto dela? Será... que gosto dela mais do que devia gostar? Ela é tão bonitinha... mesmo quando fica irritada... mesmo quando está irritada comigo, por ouvir o zumbido da minha voz... Oh, Senhor... o amor nunca é ruim, é? Mesmo que eu... a... ame...?
Ariel se inclinou e tocou os lábios inertes dela devagar. Ela se moveu um pouco e estendeu a mão na direção dele, como se quisesse tocá-lo. Ele sorri apenas.
Não, não pode me tocar... não quando estou na minha forma espiritual... Mas sente minha presença, pequenina, não sente? Gosta de sentir que estou por perto...Escute, meu nome é Ariel... oh, é egoísmo querer ouvir meu nome da sua boca? Eu preciso de orientação, preciso falar com alguém... Mas preciso esperar o demônio voltar para ficar com você, é perigoso que você fique sozinha, mesmo Arsiel não sendo a melhor das companhias pra ninguém, ele divide comigo a responsabilidade de protegê-la.
Suspirando, o anjo a beijou. Aquela mocinha seria uma provação para ele, ele sabia.

