segunda-feira, 31 de maio de 2010

Clamores - Parte II (ainda sem revisão)


Ela está cochilando. O babaca do demônio foi chamado pra receber alguma instrução e saiu de perto. E hoje ela rezou, isso dificulta as coisas pra ele.


Ariel sorri com o pensamento. Ela rezou pro anjo da guarda, rezou pra ele. Bem, ele não era bem o anjo que ela imaginava que fosse, mas isso não importava. As pessoas imaginam seus protetores da mais diferente forma, o importante é acreditar neles. Ariel desconfiava que ela teria uma decepção se soubesse quem era seu guardião.

Sou o que chamam de anjo em algumas crenças. Sou um mensageiro, um aggelos. Mas não sou perfeito, só o Pai é. Eu fui humano, há nem tanto tempo assim, estou no meu próprio caminho pela evolução. Minha atual missão é ela, cuidar dela, tentar guiá-la no caminho do Bem e atenuar a solidão que as almas sentem quando encarnadas.
Mas eu sou falível, tenho meus próprios defeitos e não estou livre de emoções humanas... Na verdade ainda sinto a maior parte delas... Não é fácil como parece evoluir.


O anjo se aproxima da garota adormecida, brincando de fazer rosas imaginarias nos cachos longos dela. Ele sorria candidamente, brincando com os cabelos dela.

Ela é muito novinha ainda. Tem tanto o que viver e o que aprender... Eu a amo, como amo a todas as criaturas, meus irmãos. Vou ajuda-la a desenvolver seus bons sentimentos, vou cuidar dela...


Ele pisca e aproxima os lábios dos dela devagar.

Mas existe algo nela que é diferente dos outros... Eu... eu nunca fui um anjo da guarda antes... seria isso a nossa conexão? Estarmos tão próximos faz isso? É normal eu gostar tanto quando ela ri? Sempre que ela ri... que vejo seus lábios se abrirem num sorriso... me lembro do Paraíso... de como tudo pode ser bom e belo... e eu...


O anjo se afasta, mexendo nervosamente nos anéis. Arruma o cabelo e volta a olhar a moça adormecida. Ele sabe que ela é apenas comumente bonita. Sabe que ela é inteligente, mas como humana que é está tão longe de entender os verdadeiros mistérios do universo. E ele pode ver os defeitos dela, cada mau pensamento que ela tenta esconder, vê seus medos e suas fraquezas, tão facilmente como pode ver o tempo nublando através de uma janela aberta.

Os humanos gostam do mistério sobre os outros... isso não existe para nós. Eu sei cada pensamento dela, cada pequeno ou grande temor. E é da minha natureza amá-la apesar de tudo isso. Por que então me inquieto? Amar os humanos não é parte, a parte mais importante, de ser o que sou? Por que meu coração não sossega quando a olho?


Ariel suspira, caminhando pelo quarto. Pode ver todos os anjos, demônios e outras criaturas cruzando o plano espiritual, cuidando de suas coisas. Ele era um anjo jovem, não mais do que setecentos anos após sua última morte, mas já estava habituado a sua nova vida. E, a despeito de tentar fingir que não sabia, ele já desconfiava do que o inquietava na jovem humana.

Eu já amei antes, tantas vezes... Não estou livre de sentimentos como paixão... ou desejo, não ainda. Sei que gostaria de beijá-la... gostaria que ela entendesse o que falo, que pudesse me ver...


O anjo voltou pra cama, deitando ao lado da menina.

Ela gostaria de mim? Como eu gosto dela? Será... que gosto dela mais do que devia gostar? Ela é tão bonitinha... mesmo quando fica irritada... mesmo quando está irritada comigo, por ouvir o zumbido da minha voz... Oh, Senhor... o amor nunca é ruim, é? Mesmo que eu... a... ame...?


Ariel se inclinou e tocou os lábios inertes dela devagar. Ela se moveu um pouco e estendeu a mão na direção dele, como se quisesse tocá-lo. Ele sorri apenas.

Não, não pode me tocar... não quando estou na minha forma espiritual... Mas sente minha presença, pequenina, não sente? Gosta de sentir que estou por perto...Escute, meu nome é Ariel... oh, é egoísmo querer ouvir meu nome da sua boca? Eu preciso de orientação, preciso falar com alguém... Mas preciso esperar o demônio voltar para ficar com você, é perigoso que você fique sozinha, mesmo Arsiel não sendo a melhor das companhias pra ninguém, ele divide comigo a responsabilidade de protegê-la.

Suspirando, o anjo a beijou. Aquela mocinha seria uma provação para ele, ele sabia.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Alistair...tudo começou...com sangue

O cetim dourado estava rubro, e as gotas iam se espalhando pelo assoalho, uma pequena poça de agua e sangue pelo chão e os gritos, meu Deus, os gritos faziam os empregados repetirem incessantemente o sinal da cruz.
Ela estava sozinha,sozinha com seus gritos de desespero, trancada no quarto, com o pequeno menino chorando aos seus pés repetindo as orações que o padre ensinanava.
Ela morria trancada. Trancada pelas mesmas chaves que agora jaziam seguras nas calças negras, nas pernas cruzadas, no escritório distante de um senhor, seu senhor, o senhor que não tinha rosto de menina. E que nunca, nunca fora ou seria um pai.

- Não papai. Pare por favor! Pai pai!!!!!!!!!!!!!! Ela não está se mexendo...

Os punhos sangravam contra o batente da porta que se recusava sequer ao minimo movimento. Os enormes portais o ignoravam, alheios por completo as manchas vermelhas em seu verniz. O sangue...toda sua vida estava regada ele...o sangue traçava um caminho sinuoso no mogno...das mãos brancas...dos dedos cortados...até o chão. Ele bateu...e gritou...ele pediu e implorou, ele chamou por tudo que acreditava ele até chamou por quem não acreditara jamais ...

- Não mexe...não...

De olhos marcados pelos tapas no rosto, pelas marcas na pele, pelos cortes na face, ele finalmente caiu inconsciente no chão. Exausto, exausto dos punhos em carne viva, exausto de tremer com o corpo inerte. Exausto de balançar aquele pequeno pacotinho inerte, roxo, que parecia com seus outros irmãos.

A cama estava cheia de sangue. Sangue de parto. Esse foi o primeiro contato de Alistair com o sangue. O sangue em sua boca. O sangue do corte no supercilio e o sangue em que sua miúda e delicada mãe se esvaziu, após um parto solitário, com um pequeno garoto de 5 anos para ajudar, após uma queda nas escadarias da enorme fazenda, que ele de maneira infantil chamava de lar. Essa foi a única imagem que restou de sua controversa origem, nunca houve uma imagem materna, com seis anos todas as lembranças se resumiam a uma cama de sangue e água. E uma sensação enorme de não quero mais.

Alistair teria odiado pai naquele momento, não estivesse ele convencido do principios com os quais ele fora esmagado, mas os principios não foram suficientes para afastar o ódio de si e anos depois o pai, aquele que não tinha o rosto de menina, se lembraria daquela noite. Durante os anos subsequentes sonhos sempre vermelhos, iam e vinham retornando àquela cena.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Clamores - Parte I (ainda sem revisão)



Ele a observava de uma curta distância com os olhos cor de prata. Ligeiramente desajeitada a garota empurrava o sofá de um lado para o outro da sala.
O vento brincava com os cabelos vermelhos dele, imóvel sentado no peitoral da janela, atento aos movimentos da menina. Talvez tivesse medo que ela se machucasse.
Ele foi tirado de seus pensamentos por um perfume agridoce e conhecido. Sentiu uma sombra lhe tapando o sol e virou-se para contemplar o recém-chegado.
Era outro rapaz, que em pé tinha quase a sua altura, cabelos loiro escuros jogados para trás, altivo nas vestes pretas e com um brilho irônico nos olhos vermelhos.
- Todos vocês são voyeur?- o recém chegado perguntou, sorrindo de lado.
- Não mais do que vocês o são. Por que não se apresenta formalmente? Imagino que você seja o novo enviado.

O loiro riu levemente e cruzou o umbral da janela. Cravou os olhos rubros na menina e em seu esforço para mover o sofá.

- Ela não é tão bonita... mas até que tem algo. - só então voltou-se para o outro - Sou Arsiel, o Sol Negro. Sou seu novo companheiro de jornada. - Ele mostrou os dentes brancos, perfeitos, num sorriso debochado. - Você é Ariel, não é?

- Sim, Sou Ariel, o Leão de Deus.- o ruivo se ergueu, para olhar Arsiel nos olhos.- Ela é uma bela garota, mais bela na alma do que seus olhos podem ver.
- Que seja. - ele deu de ombros- Você não deveria fechar uns botões da sua camisa e tirar esses piercings todos? Sabe, ficar mais angelical?

Ariel tocou inconscientemente a orelha, deslizando os dedos pelos brincos de prata, parando no transversal. Não era a primeira vez que alguém reclamava das jóias.

- E no que isso te incomoda? - ele parecia levemente aborrecido - Sou um mensageiro, porque não posso vestir-me como me agrada?

- A mim pouco se me da. Mas imaginei que a vaidade era um pecado.

- A maioria das coisas podem ser pecado ou virtude, depende de como se faz. E se vamos conviver pelas próximas décadas, melhor não criarmos rusgas desnecessárias. eu não disse que você parece mais um desses garotos que brincam de vampiros do que um demônio...

- Queria o quê, serafim? Que eu usasse chifres e tridente, pra facilitar o seu trabalho? Não, obrigado. Se vai tentar faze-la ficar longe de mim, esforce-se.

Arsiel sorri maldoso, passando a mão pelos cabelos brilhantes. Parecia muito bonito sob a luz do sol, os olhos vermelhos brilhando maus e atraentes.

- Vou me esforçar. - Ariel retrucou, puxando a lapela de sua camisa branca, o movimento deixando parte do peitoral de pele muito clara a mostra.

- Vai seduzi-la? - o demônio virou-se abruptamente.

- Por que raios vocês não calam a boca?
A menina disse e tapou os ouvidos, com uma expressão irritada.
Arsiel abriu a boca, completamente surpreso. Parecia incrédulo que a humana tivesse reclamado do barulho dos dois... Humanos não ouvem demônios ou anjos, ao menos, não os humanos normais.

- Ela é medium?
- Mais ou menos. Mas faça silêncio, ela está incomodada.

Ariel pousou as mãos nos ombros da humana, que aparentemente não podia senti-lo.

- Ela não entende o que dizemos. Só escuta barulho e fica irritada.
- Que seja, você não me respondeu. Vai seduzi-la?
- Vou mantê-la a salvo da sua influência.

Os dois se encararam, olhos rubros e prateados, ambos determinados a não ceder.

- Isso veremos, anjo.
- Pode apostar, demônio.


 
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